A Flórida segue sendo o destino número um dos compradores internacionais nos Estados Unidos — e o brasileiro é um dos mais presentes. Mas há um detalhe que muda tudo e que poucos guias deixam claro: nem todo comprador brasileiro está na mesma situação. Tem quem compre morando no Brasil, à distância. E tem a enorme comunidade brasileira que já vive aqui — em Orlando, na Flórida Central, em Miami e por toda a região —, com visto, green card ou até cidadania.
As duas situações são possíveis. Mas o financiamento, os impostos e a documentação funcionam de forma bem diferente em cada uma. Este guia trata das duas, lado a lado, para que você saiba exatamente onde se encaixa.
A pergunta que trava a maioria das pessoas no começo é simples: eu, brasileiro, posso mesmo comprar? A resposta é sim — em qualquer um dos dois cenários. O resto é logística, e é isso que vamos destrinchar.
O primeiro mito: ninguém precisa de visto, green card ou cidadania para comprar
Vamos direto ao ponto: não existe exigência de cidadania, green card ou visto para comprar imóvel nos Estados Unidos. Isso vale para o brasileiro que mora no Brasil e para o que já vive aqui. O direito de comprar é o mesmo.
E o contrário também é verdade: comprar um imóvel não concede visto, residência nem qualquer status migratório. São assuntos separados. Se a mudança definitiva faz parte do plano, o caminho do visto se resolve com um advogado de imigração, em paralelo e de forma independente da compra.
O que muda de uma situação para outra não é o direito — é o tratamento: quanto de entrada o banco pede, quais impostos incidem e qual documentação você precisa. E isso depende de um divisor de águas que vale entender antes de tudo.
O divisor de águas: você é residente fiscal nos EUA ou não?
Quase tudo neste guia depende de qual destes dois perfis é o seu:
Perfil 1 — Você mora no Brasil (não residente). Você passa a maior parte do tempo fora dos EUA, não tem Social Security Number e não declara imposto como morador americano. Para a lei americana, você é um foreign national / não residente.
Perfil 2 — Você já vive nos EUA (residente). Você tem green card, um visto válido ou passa tempo suficiente no país para ser considerado residente fiscal, normalmente já com SSN e histórico de crédito americano.
Guarde esses dois nomes. A seguir, sempre que algo mudar entre eles, eu aponto.
À vista ou financiado?
Muitos brasileiros pagam à vista, o que simplifica o processo. Mas financiar é totalmente possível nos dois perfis — só com regras diferentes.
Se você mora no Brasil (não residente): existe um produto específico, o foreign national loan. O que esperar em 2026:
- Entrada maior. Para quem mora fora, o normal é 20% a 30% do valor do imóvel, podendo chegar a 40%. Programas com entrada menor existem, mas são raros e exigem reservas e comprovação patrimonial mais rígidas.
- Sem crédito americano. Não é preciso ter SSN, score de crédito americano ou green card. Bancos especializados usam documentação alternativa: extratos, relatório de crédito do Brasil, comprovação de renda no exterior.
- Reservas exigidas e juros um pouco mais altos, por ser um perfil de maior risco para o banco.
Se você já vive nos EUA (residente): aqui a situação costuma ser bem mais favorável. Quem tem green card é tratado praticamente como cidadão e pode acessar financiamentos convencionais ou FHA com entradas a partir de 3% a 5%, dependendo de crédito e renda. Quem tem visto de trabalho válido normalmente entra na faixa de 5% a 20%. Ter SSN e histórico de crédito americano abre as melhores condições do mercado.
Em qualquer caso, uma pré-aprovação com um loan officer que atenda brasileiros mostra exatamente o que cabe no seu orçamento — e dá força à sua proposta na hora de negociar.
ITIN e conta bancária: o "CPF americano"
Se você não tem SSN (caso típico de quem mora no Brasil), vai precisar do ITIN (Individual Taxpayer Identification Number) — o número de identificação fiscal que funciona como um CPF americano. Ele é necessário para declarar renda de aluguel, para o processo de venda no futuro e, muitas vezes, para abrir conta em banco. Solicita-se pelo Formulário W-7 do IRS, e leva algumas semanas — comece cedo.
Se você já vive aqui e tem SSN, esse passo não se aplica: o seu próprio SSN cumpre o papel.
Abrir conta nos EUA não é obrigatório para comprar, mas facilita muito: taxas, condomínio, seguro e recebimento de aluguel. Para quem mora no Brasil, alguns bancos exigem presença no país para a abertura.
Comprar no nome pessoal ou via LLC?
Não existe resposta única — depende do objetivo, e vale para os dois perfis.
Comprar no nome pessoal é mais simples, mais barato e facilita o financiamento. Funciona bem para quem vai morar ou passar temporadas.
Comprar via LLC costuma ser considerado por investidores e por quem pensa em proteção patrimonial e sucessão. Mas tem contrapartidas: custos de abertura e manutenção, financiamento mais difícil e — atenção — não elimina questões fiscais como o FIRPTA para quem é não residente.
O tema da herança merece um alerta especial para quem mora no Brasil: estrangeiros não residentes têm uma isenção de imposto sobre herança (estate tax) muito baixa nos EUA, o que pode gerar uma conta pesada se nada for planejado. Para quem já é residente, a exposição costuma ser diferente. Em ambos os casos, é assunto para resolver antes de comprar, com um contador (CPA) ou advogado tributário. Estruturar errado é caro de desfazer.
Os custos além do preço do imóvel
O valor anunciado não é o que você vai realmente gastar. Planeje para:
- Custos de fechamento (closing costs): normalmente de 2% a 5% do valor.
- Imposto sobre a propriedade (property tax): anual, varia por condado.
- Seguro: na Flórida, o seguro residencial (furacão e, em algumas áreas, enchente) surpreende muita gente. Pesquise antes.
- Condomínio / HOA: em prédios e comunidades planejadas, pode ser significativo.
Um ponto que muda entre os perfis: a isenção homestead. Quem torna o imóvel sua residência permanente na Flórida — caso de muitos brasileiros que já vivem aqui — pode solicitar essa isenção, que reduz o property tax e limita o quanto ele sobe a cada ano. Quem mora no Brasil e usa o imóvel como segunda casa ou investimento não tem direito a ela.
Impostos: o que esperar enquanto você é dono
A boa notícia, para todos: a Flórida não cobra imposto de renda estadual.
O que muda entre os perfis é a sua relação com o IRS. Quem mora no Brasil é tributado, em geral, apenas sobre a renda de fonte americana — como o aluguel do imóvel —, que precisa ser declarada (aqui o ITIN entra de novo). Quem é residente fiscal nos EUA é tributado de forma mais ampla, como um morador. Em qualquer cenário, há ainda a interação com a sua situação fiscal no Brasil e o tratado entre os países. É o tipo de coisa que pede um contador que entenda dos dois lados.
FIRPTA: o imposto que aparece quando você vende (e quando ele NÃO se aplica)
Esse detalhe pega muito comprador desprevenido — mas, dependendo do seu perfil, talvez nem chegue a você.
Quando uma pessoa estrangeira (não residente) vende um imóvel nos EUA, entra em cena o FIRPTA: a lei exige reter 15% sobre o valor bruto da venda (não sobre o lucro) e enviar ao IRS no fechamento. Há reduções para imóveis residenciais de menor valor, dependendo da intenção do comprador.
O ponto-chave: 15% do bruto costuma ser muito mais do que o imposto realmente devido. A diferença é recuperável — você declara a venda (Formulário 1040-NR, com ITIN) e recebe a restituição. Também dá para pedir redução da retenção antes do fechamento, com o Formulário 8288-B.
E aqui está a diferença que importa: o FIRPTA atinge não residentes. Quem já é residente fiscal nos EUA — com green card ou pelo tempo de permanência no país — em geral não está sujeito a essa retenção ao vender, justamente por não ser tratado como estrangeiro para fins fiscais. Se esse é o seu caso, confirme com um CPA, mas provavelmente esse susto não é seu.
O passo a passo da compra
De forma simplificada:
- Defina objetivo e orçamento. Morar, passar temporadas ou investir levam a cidades e estruturas diferentes.
- Resolva o financiamento (se for o caso). Uma pré-aprovação mostra o que cabe e fortalece a proposta.
- Escolha a região e a cidade certa. É aqui que a maioria erra comprando "de longe". Cada região da Flórida tem um perfil — e o agente que conhece o bairro quarteirão por quarteirão é metade da decisão.
- Faça a proposta e o contrato.
- Inspeção e avaliação.
- Fechamento. Pode ser feito à distância, com procuração — você não precisa estar nos EUA no dia.
Os erros mais comuns dos compradores brasileiros
- Comprar sem ninguém de confiança no local. Fotos enganam. Bairro, ruído, risco de enchente, qualidade da construção e potencial de valorização só se enxergam de perto.
- Subestimar seguro e impostos. O preço do imóvel é só o começo.
- Ignorar o câmbio (para quem traz recursos do Brasil). O momento da conversão real–dólar muda bastante o custo final.
- Não planejar a parte fiscal e sucessória antes de comprar. FIRPTA, estate tax e homestead entram aqui — e variam conforme você seja residente ou não.
- Não saber em qual perfil se encaixa. Aplicar a regra do não residente quando você já mora aqui (ou o contrário) leva a entrada errada, imposto errado e decisão errada.
A boa notícia é que todos esses erros são totalmente evitáveis. Com a informação certa e um profissional ao seu lado desde o início, nenhum deles precisa fazer parte da sua história — e a compra vira um processo tranquilo.
Por onde começar
Comprar na Flórida sendo brasileiro é mais acessível do que parece — morando no Brasil ou já vivendo aqui. A parte difícil quase nunca é o imóvel; é montar o time certo (agente local, loan officer que atende brasileiros, contador) e escolher a cidade que combina com o seu objetivo e com o seu perfil.
É exatamente esse o nosso trabalho, e o serviço é gratuito para você, comprador. Conectamos você ao profissional e à cidade certos, em português, com quem conhece o terreno. Para começar, faça o nosso quiz e descubra quais cidades da Flórida mais combinam com você.
Este conteúdo tem caráter informativo e não constitui aconselhamento jurídico, tributário ou financeiro. Regras, taxas e programas mudam e dependem da sua situação específica — inclusive de você ser ou não residente fiscal nos EUA. Antes de decidir, consulte um contador (CPA), um advogado e um especialista em financiamento.
Pronto para o próximo passo?
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